Um piercing é uma ferida. O teu corpo cicatriza-o tal como cicatriza qualquer outra ferida — apenas mais lentamente, porque a joia mantém o canal aberto em vez de deixar a pele fechar completamente.

As 4 fases da cicatrização
Fase 1 — Sangramento. Começa no momento em que fazes o piercing e dura entre 3 e 5 dias. O corpo fecha a ferida através da coagulação do sangue, por isso algum sangramento ou nódoa negra nos primeiros dias é perfeitamente normal.
Fase 2 — Inchaço. Começa logo depois da primeira fase, por vezes no dia seguinte, outras vezes alguns dias depois. A pele à volta do piercing fica inchada e avermelhada. É por isso que começamos cada piercing com uma joia ligeiramente mais comprida — é preciso deixar espaço para o inchaço. Esta fase costuma durar 6 a 8 semanas, embora possa durar mais, dependendo do piercing.
Fase 3 — Reconstrução. O corpo reconstrói os tecidos, cria novas células e repara os vasos sanguíneos. O piercing começa a sentir-se normal novamente. Esta fase dura entre 6 e 9 meses. Depois de ultrapassada, podemos considerar o piercing cicatrizado — dormir sobre ele, por exemplo, deixa de ser um problema.
Fase 4 — Maturação. A ferida fecha de fora para dentro e forma tecido cicatricial. Vais notar isto se alguma vez tirares a joia: o furo mantém-se redondo e consegues ver diretamente através do canal. Depois desta fase, o piercing deixa essencialmente de mudar — embora possa estreitar se ficares algum tempo sem usar joia.

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A cicatrização também nem sempre avança em linha reta. Se, por exemplo, prenderes um piercing acabado de fazer no cabeleireiro e ele voltar a sangrar, regressaste à fase 1 — precisa de coagular, inchar e reconstruir o tecido novamente. Quanto mais avançada estava a cicatrização, mais rapidamente o corpo volta a passar pelas fases com os cuidados adequados.
Porque usamos solução salina (e mais nada)
Esta explicação vem da minha formação na Fakir Piercing, em São Francisco — o estúdio fundado pelo próprio Fakir Musafar, que continua a ser a casa de alguns dos educadores mais respeitados do mundo do piercing. Aprendi isto com Ken, o seu braço direito e uma das pessoas que ajudaram a definir os padrões que o setor continua a seguir atualmente.
Uma ferida aberta produz um líquido — transparente a ligeiramente amarelado, um pouco pegajoso — que ajuda a ferida a cicatrizar e a fechar. Se ficar no local, este líquido seca e transforma-se na crosta que vês à volta de um piercing recente. Para que a ferida cicatrize corretamente, o líquido existente dos dois lados do canal tem de se manter equilibrado.
Se usares algo como álcool ou água oxigenada, o teu corpo reage produzindo mais líquido para eliminar o irritante e recuperar o equilíbrio. Mais líquido significa mais crostas. E mais crostas significam mais risco sempre que a joia se mexe: o movimento puxa pelas crostas pegajosas, arrancando-as e voltando a abrir pequenas feridas por baixo. Isso significa algum sangramento, mais tecido cicatricial, mais inchaço e um corpo que tem de voltar a trabalhar para cicatrizar o mesmo local.
A solução salina estéril tem uma composição muito semelhante à do líquido natural da ferida. Ao utilizá-la, não provocamos essa produção excessiva de líquido como resposta defensiva — o corpo não precisa de produzir tanto porque a solução salina já ajuda a manter o equilíbrio. Menos líquido significa menos crostas, o que permite que a joia permaneça no canal sem ficar colada à pele. Uma ferida mais limpa, sem crostas que prendam e rasguem, e uma cicatrização mais rápida e tranquila.
É também por isso que nunca recomendamos sprays químicos, álcool ou desinfetantes agressivos num piercing recente.
Regra simples: se não o colocarias no olho, não o coloques no piercing.
Se um piercing ficar realmente inflamado, um médico ou piercer poderá recomendar uma pomada antibiótica. A pomada oftálmica de tetraciclina (frequentemente vendida como Terramycin) é a opção mais suave — é suficientemente delicada para ser utilizada junto ao olho e até no próprio olho, o que diz bastante sobre a sua suavidade para tecidos em cicatrização. A Fucidin é mais frequentemente prescrita pelos médicos de família, mas é um creme tópico que fica sobretudo à superfície e não é bem absorvido pela pele — seca na joia em vez de chegar à parte mais profunda do canal, que é normalmente onde está o verdadeiro problema. Também é mais agressiva e, pela minha experiência, pode manchar ou descolorar joias de ouro. Consulta sempre um profissional antes de usares qualquer antibiótico — um piercing raramente precisa de um e utilizá-lo sem necessidade pode causar mais irritação do que aquela que resolve.

Enxagua. Cuida. Seca. Protege.
Quatro passos, por esta ordem, todos os dias — e esta rotina mantém-se durante as primeiras 6 semanas, até à tua consulta de acompanhamento ou downsize. Nessa altura vamos avaliar como o piercing está a cicatrizar e podemos ajustar os cuidados para a fase seguinte, mas até lá, segue esta rotina exatamente assim.
Enxagua com água corrente — no duche é mais fácil. Isto amolece as crostas existentes para que possam ser removidas suavemente, em vez de ficarem presas à joia enquanto esta se mexe e criarem pequenas feridas que sangram ou incham.
Cuida com solução salina estéril, duas vezes por dia. Este é o passo que ajuda o teu corpo a manter o líquido da ferida equilibrado, para que não precise de produzir crostas em excesso.
Seca — idealmente com um secador de cabelo limpo, no modo de ar frio. Evitar que fique humidade na ferida significa evitar a formação de mais crostas e reduzir o inchaço.
Protege. Não tocar, não rodar, não fazer pressão. Auscultadores, gorros, cabelo, dormir sobre o piercing — qualquer coisa que empurre ou puxe a joia faz com que o corpo tente novamente recuperar o equilíbrio, o que normalmente significa mais crostas ou até algum sangramento se uma crosta for arrancada. Uma pressão prolongada, como dormir sobre um piercing recente na cartilagem, pode provocar o aparecimento de uma pequena saliência cheia de líquido no lado oposto ao da pressão. Estas saliências podem ser persistentes, mas diminuem — normalmente com os cuidados e acompanhamento adequados, e é exatamente por isso que as consultas de acompanhamento são importantes.
O downsize e porque é importante
Usamos as 6 semanas como momento médio para fazer o downsize — trocar a joia inicial mais comprida por uma mais curta quando cerca de 70% do inchaço já desapareceu. Quando a joia fica encostada à pele, o movimento é reduzido ao mínimo e o piercing cicatriza muito melhor.
Idealmente, começaríamos cada piercing com o comprimento exato, mas isso raramente é possível — o inchaço varia imenso de pessoa para pessoa e uma joia demasiado curta para esse inchaço cria riscos reais. Quando a joia não tem espaço suficiente para acomodar o inchaço, o corpo encontra outra forma de se proteger, normalmente produzindo uma acumulação de líquido branco ou transparente à volta da joia. Se não for controlada, é precisamente o tipo de situação que pode favorecer uma infeção. A solução é simples: uma joia mais comprida, a pressão desaparece, o corpo deixa de tentar proteger-se e a cicatrização volta a avançar.
O mais importante
A maioria dos pequenos problemas durante a cicatrização não são realmente problemas — são simplesmente o teu corpo a fazer exatamente aquilo que deve fazer. Mas nem tudo desaparece sozinho e esperar demasiado pode significar passar desnecessariamente por uma cicatrização que deveria ter sido simples.
Se alguma coisa no teu piercing não te parece bem, marca uma consulta de acompanhamento e vamos colocá-lo rapidamente de novo no caminho certo. E, se ainda não tens, compra uma solução salina estéril — é o único produto de que o teu piercing realmente precisa.